A CORAGEM DE LASSIE
«O trabalho é um estado de graça, como a paixão. Não confundir com o salário, que esse é o do medo. Paixão, to fall in love, tomber amoureux. A curiosa palavra queda, que nos deixa, nem que por segundos - como, por exemplo, quando se vai a cair na rua – livres, soltos. E estar livre é estar sem medo, sem limite, até o nosso corpo atingir o chão claro. Para um artista, fabricar imagens é uma prova de vida.»
Ana Jotta (texto não publicado lido em «A Coragem de Lassie»)
«A Coragem de Lassie» é um filme sobre Ana Jotta ou sobre o seu trabalho? Talvez seja sobre uma espécie de superfície (cujo equivalente material, no filme, é o ecrã que a imagem cinematográfica supõe) onde as duas coisas se entrelaçam suavemente. O filme não quer «aprofundar» muito, não quer «ver muito», seja do atelier, seja da casa, seja da própria Ana Jotta. Há uma distância, e, por seu intermédio, tudo desliza em ambas as superfícies, como um ritornello de Ana Jotta. São estes os efeitos mais sensíveis e onde é inscrita a ética da distância deste filme.
«A Coragem de Lassie» - porquê este título? Talvez por causa da memória, por «Lassie» ser um objecto de imaginação, que vem das histórias e do cinema, como muitos dos objectos de que Ana Jotta se rodeia e pinta; «A Coragem de Lassie» é também o título de uma pintura sua, um quadro cinzento que podemos ver pouco depois do início do filme, contendo apenas essas mesmas palavras, desenhadas ao modo dos títulos dos filmes clássicos, ou então como um letreiro antigo de sala de cinema.
O filme é todo ele animado por uma espécie de dança subtil, quase quieta, a do movimento, da vibração e dos gestos de Ana Jotta. E também por um ritornello composto pela modulação da sua voz e pelos sons fortes da música e das canções, que constituem o plano sonoro enquanto pinta.
No movimento, gerado pela montagem, entre a casa povoada de objectos - que correspondem, também eles, a essa «aceitação das coisas vazias», como ouvimos dizer Gaetan - e o trabalho no atelier, Francisca Manuel devolve-nos uma existência simultaneamente leve e misteriosa (sem angústia) da «vida menor, a trabalhada» - descrição da vida da arte, que a dado momento ouvimos ler a Ana Jotta: «O trabalho é um estado de graça, como a paixão.» O filme mostra isto de modo justo, isto é, sem o exaltar. Aí reside, talvez, a sua coragem.
Edmundo Cordeiro
Amândio Coroado
(in "folha de sala" da Cinemateca Portuguesa, 2009)
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"A Coragem de Lassie" em ante-estreia na Cinemateca
por Lusa 29 Maio 2009
A primeira obra para cinema de Francisca Manuel, a longa-metragem "A Coragem de Lassie", sobre o universo da artista plástica Ana Jotta, vai ser exibida em antestreia na Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, dia 04 de Junho.
Produzido pela Súbita, o filme, de 50 minutos, começou a ser criado em 2008 por Francisca Manuel, actualmente finalista do curso avançado de Artes Plásticas do Ar.Co.- Centro de Arte e Comunicação Visual, que também apoiou a obra.
Francisca Manuel acompanhou Ana Jotta no seu atlier, na sua casa, e durante a montagem de uma das suas exposições, filmando-a nesse processo, mas também captando os comentários da artista ao espírito do seu trabalho.
O filme "A Coragem de Lassie" adopta o título de uma exposição individual de Ana Jotta, 62 anos, realizada em 1998, em Lisboa.
Ana Jotta estudou na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, na École de Arts Visuels et d´Architecture de l´Abbeye de la Cambre, em Bruxelas, e foi actriz até ao início dos anos 1980, passando depois a trabalhar nas artes visuais.
A partir dessa altura criou um percurso artístico marcado por rupturas com as ideologias do modernismo, dos mitos do pós-modernismo, e da própria noção de autoria, que vai construindo e desconstruindo.
Em 2005 realizou uma exposição retrospectiva no Museu de Serralves, no Porto.
Francisca Manuel, nascida no seio de uma família de arquitectos, chegou a estudar arquitectura na Universidade Autónoma de Lisboa, mas mudou depois para o Curso de Cinema e Imagem em Movimento do Ar.Co., dedicando-se à pesquisa do uso do vídeo nas artes plásticas.
Criou os vídeos "Fátima" (2006), sobre a empregada que lhe limpava a casa, e "S/Título (Ar.Co.)" (2007), sobre o edifício do centro de arte.
(in DN Cartaz)