Manuel Caldeira (Nota Biográfica)

Nasceu em 1979, Oeiras, Portugal.
Vive e trabalha em Lisboa.
Exposições individuais (selecção): 2007 - "desenhos", Baginski Galeria / Projectos, Lisboa.
Exposições colectivas (selecção): 2008 - "“Quel Air Clair…” Obras da colecção do Ar.Co", Palácio Galveias, Lisboa. 2006 - “Pinturas em Colaboração”, Galeria de Colares, Colares. “Obras sobre Papel”, Galeria CUBIC - Arte Contemporânea, Lisboa.


_______(Imagens)



_____(Textos)


Uma atenção regressiva

“Sob que formas se revelam as figuras e até que ponto
podem elas entrar numa imagem? Não sabemos dizê-lo.”
__________________________________Ernst Jünger


______Mais difícil do que começar é pensar o começo: como é que o que estava antes se transforma no que veio depois, o que é que acontece nessa transformação e o que é essa passagem? Esta dificuldade coloca-se diante da presente série de desenhos de Manuel Caldeira. Sobre reproduções de imagens antigas, o artista compõe desenhos mais ou menos enigmáticos que nos levam a procurar um sentido na relação com elas. Soçobramos nesse esforço porque o sentido está todo, de cada vez, contido nos próprios desenhos. Nós queremos ver a passagem, mas essa expectativa não conhece um preenchimento, que só é dado ao artista. Os desenhos são restituições de uma visão, da visão de uma forma que está, de algum modo, para além das imagens, de algum modo antes delas. Compreender isto implica, por um lado, atentar na singularidade de cada um, por outro descobrir os subtis parentescos que os ligam entre si e a uma família concreta, expondo aquilo a que se pode chamar a sua gramática (o seu segredo).
______ O primeiro aspecto que desarma o contemplador é o carácter pouco elaborado, quase displicente, das formas desenhadas, a imperfeição geométrica, o seu preenchimento irregular, a cor que não fica uniforme. Por vezes tapam tudo o que lá estava, outras só parte, noutras preenchem os interstícios, como que parasitando a imagem subjacente ou até brincando com ela, iludindo-nos com um humor ou uma associação figurativa vagamente surrealistas que não nos devem, porém, convencer. A representação aqui é engodo ou distracção de uma linguagem cifrada, que se revela antes na repetição das simetrias imperfeitas, dos estranhos duplos totémicos, da diluição das formas quase até a um informe geométrico e figurativo. Estamos diante de uma espécie de sistema interno de citações: citação das curvas das imagens escolhidas, de formas de inspiração vagamente picassiana ou matissiana e até - sobretudo - de formas de antigos desenhos do autor, que assim parece citar-se a si próprio (e podemos mesmo ver num sinuoso desenho cor-de-rosa sobre algo escondido pelas pregas de um tecido um monograma do primeiro nome do artista, uma assinatura no sentido antigo da palavra, já que a larga linha desenhada é uma espécie de variação exemplar e curvilínea do tema recorrente das formas imperfeitamente simétricas). O olhar atento verá ainda pares horizontais comunicantes ou verticais e mais funéreos, descobrindo como estes últimos são constituídos por elementos mínimos pictóricos, caros ao pintor como a sua linguagem mais própria. Estes elementos já apareciam em trabalhos anteriores, como a forma-base de que é composto o desenho que parece servir a imagem de uma arma antiga rodeando-a para melhor a expor, mas que é uma forma já antiga, familiar, um parente anguloso de outras que, arredondando-se ou invertendo-se, se repete verticalmente formando cadeias em equilíbrio instável.
______ Assim, a questão não é saber o que estava antes dos desenhos (as imagens das reproduções), mas compreender que antes das imagens estão os desenhos (embora cheguem depois). É este o sentido regressivo de um movimento que encontra formas sem nome e para as quais tem de criar uma gramática específica dando a ver o que encontrou – o centro escuro, ameaçador e frágil de uma teia que se estende sobre as figuras humanas de um esquisso antigo, um esboço quase gráfico de um homem sentado no vazio centrífugo da curva verde que parece arrastar todas as armas do mundo, a dupla de testículos rosados ou as estranhas nuvens azuis que se impõem como uma mancha sobre a reprodução das armas antigas. A associação livre não é a chave, tal como a teoria dos vasos comunicantes não chega para perceber as ligações entre os pares paralelos de reproduções que o desenho une. Estes trabalhos são uma espécie de desenhos cegos, fruto de uma atenção regressiva, vidente mas apontando para lá de todas as figuras, para uma espécie de arquétipos que Manuel Caldeira descobre num exercício que leva quase até ao limite (quase até ao informe, ou ao disforme). Uma rebelia em relação ao equilíbrio, o preenchimento deliberadamente grosseiro do desenho, tudo aponta para um registo mais primitivo, para algo que, aparecendo depois, sobrepondo-se e aparentemente recorrendo à imagem, é, na realidade, prévio, primeiro, anterior. Os desenhos desafiam a lógica figurativa e as relações lógicas em geral, como na estranha roda de dança matissiana que viola todas as regras da possibilidade de dançar, ou o caso da enigmática estrutura curva e interrogativa que parece selar uma figura humana, como se o artista nos dissesse: “Tomai, isto é o que eu vejo”.
______Se na arte “há motivos que não podem ser inventados nem aprendidos” porque reclamam “um instinto, um saber cego que se relaciona com as coisas últimas” (Jünger), aqui ela é exercício pictórico da memória, um tiro no tempo. Por vezes restam apenas um nº de série e um gatilho, noutras desaparece mesmo tudo o que lá estava.
_______________________________________________Maria João Mayer Branco


(in "Desenhos", Baginski Galeria / Projectos, 2007)

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______Jogos de homenagem


______Só pode admitir que o mundo é uma aparência de outra coisa quem já experimentou essa suspeita, também filosófica. Se o fundamento das coisas jaz no lado profundo da vida, e se a origem das coisas gosta de se esconder, revelam-se inseparáveis os caminhos da violência e do jogo. Que o coração do mundo pulsa ao ritmo desses dois movimentos, o da violência da geração e destruição e o de um jogo triunfante, explicou-o Nietzsche através do significado da dissonância musical: o nascimento e a destruição do mundo das aparências a que pertence a nossa vida decorrem de um prazer primordial e lúdico. Para falar claro, trata-se aqui da afirmação de que a violência trágica da vida e da morte pode ser restituída pelo jogo aprazível da arte.

_____Nos desenhos de Manuel Caldeira manifesta-se esta dissonância primordial, uma tensão entre o fúnebre e o lúdico. As formas que se apresentam evocam figuras tumulares de raiz escultórica, em que o desenho propriamente dito se resume às arestas que contornam as figuras e invadem a superfície. Admitindo que a superfície é o mundo – pressuposto não figurativo, mas metafísico –, estes desenhos parecem dar a ver a contradição íntima das coisas: dor e alegria, lamento e louvor, peso e graça. A quase neutralidade do desenho, a sua aparente não sofisticação, concorrem para a gravidade aqui em causa, para o pesar que as formas expressam, sem dramatismo, sem psicologia. Não se trata, portanto, de um trabalho de pendor existencialista, de uma pintura da finitude. Não há angústia aqui, mas homenagem. E a homenagem implica aceitação. Atentando na verticalidade das formas comum a todos os desenhos, torna-se clara a matriz funerária de onde surgem, uma gravidade que não admite efeitos nem exercícios de virtuosismo. Um certo despojamento – pictórico e figurativo – alia-se à imprecisão geométrica: justamente, no profundo não há pureza, mas uma inextrincável mistura de crueldade e alegria, o motor das coisas.

_____Se a obra de arte é, como disse Jean Genet a respeito do trabalho de Giacometti, uma oferenda ao inumerável povo dos mortos que a vida levou para a margem onde esperam um sinal ido daqui, podemos olhar estes desenhos como esse recuo de milénios que se dirige à noite imemorial. “Sem miserabilismos”, diz Genet – e nós sublinhamos -, trata-se aqui dessa arte capaz de se infiltrar pelas paredes porosas do reino das sombras. Por isso o que aqui se joga é o reverso de uma psicologia, é em rigor um trabalho de memória na direcção do imemorial que jaz no fundo da vida e a sustenta. Não há lugar para a subjectividade porque o que importa não é o indivíduo, mas figurar a morte - essa profundidade de onde apareceu, a profundidade aonde regressa.
_____Esta homenagem ao jogo do aparecer e desaparecer que é a nossa vida revela-se ela própria como um jogo que repete o jogo originário. A visão destas formas tumulares deixa também descobrir ao olhar atento o carácter lúdico que os desenhos exibem. Desenhos aparentemente desinteressados pelo desenho, jogando-se todos nos contornos, sugerem recortes que se organizam compondo a aparência final. Desenhos de uma só cor, opacos e neutros, justapõem-se quase horizontalmente pela superfície do papel, em repetições que formam figuras algo instáveis, geometricamente impuras. Desenhos-recorte onde acontece o contrário de uma mancha de cor: trabalhos de circunscrição não linear do espaço, não são aparições, mas justaposições, uma hipótese configurativa que não dá ordem, mas a procura mostrar.
_____ A uma certa melancolia, acresce o enigmático prazer que nos deixa suspensos entre o peso do luto e a leveza das formas. Esta tensão é particularmente manifesta no trabalho onde as associações explícitas à prática do jogo (um pano verde, um alvo, um relvado) não nos libertam da visão do túmulo. Mais uma vez a dissonância aparece, reveladora de uma compreensão, não analítica, mas expressiva, em que a visão da primordial violência surge como um convite ao jogo. Por outro lado, estes jogos de homenagem não obedecem a nenhuma história: não há o indivíduo e a sua sorte, não são elegias da solidão, mas do leito comum que a todos espera e a todos une. Dirigidos ao inumerável povo dos mortos, os desenhos figuram uma comunidade e as formas não surgem sozinhas, mas exibindo a sua relação mútua. Combinando - dissonantemente – a compaixão e o desafio, a dor e a alegria, como nas afiadas-desafiadoras labaredas/dólmen ou na única cedência ao jogo de cores do sexteto de pirâmides, estamos perante um ritual colectivo em que o lamento se volve em louvor. Aceitando a inexorabilidade da morte, estes desenhos entram no jogo, correm o risco. “É impossível pôr ordem no elementar. Ou a mostramos ou não a mostramos.” (Samuel Beckett, Le monde et le pantalon).

Maria João Mayer Branco


(in "Obras sobre papel", CUBIC, 2006)